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Uma corrida contra o tempo?

1. A poucos dias da decisão do Senado sobre o provável - de acordo com o levantamento dos principais jornais do país, impeachment da presidente Dilma Rousseff, que pode afastá-la do cargo por pelo menos 180 dias a partir de meados de maio, acompanha-se de perto a montagem da equipe ministerial do futuro governo Michel Temer.

2. A despeito do interesse que gera a composição partidária de suporte ao novo time, as maiores atenções dos mercados vão, sem dúvida, para os potenciais nomes na área econômica.

3. Natural, diante do fragilíssimo ambiente econômico atual, a despeito de:

a. Tendência de queda da inflação, com o IPCA-15 de abril em 0,51%, (9,34% em 12 meses). O IPCA segue a mesma trajetória e caminha para os 7% no ano. Melhor que os 10,67% de 2015, mas bem distante dos almejados 4,5%;

b. Alta de 1,4% na produção industrial de março frente a fevereiro, a maior variação mensal desde 2014, mas ainda com imensa queda de 11,4% contra mar/15 e -9,7%, em 12 meses. A taxa de desemprego, também em março, subiu para 10,9%, três pontos acima do que se tinha há um ano;

c. Nova surpresa positiva com o superávit da balança comercial, que em abril chegou a US$ 4,9 bi, acumulando US$ 13,2 bi no ano contra déficit de US$ 5,1 bi em igual período de 2015. O saldo pode chegar a US$ 50 bi no ano, muito acima dos US$ 15 bi estimados pela pesquisa Focus do BC na virada do ano. Números muito bons, mas frutos de forte recessão econômica.

4. Assim, é enorme o desafio à futura equipe econômica (que pode incluir nomes de peso no mercado como Henrique Meirelles e José Serra), especialmente quando se sabe que o maior desafio desse time está no campo fiscal. O saldo primário passou de 1,5% do PIB, em 2013 para -2,284% nos 12 meses findos em março/16. A dívida bruta subiu no período de 53% para 67% do PIB. É a maior fragilidade do país.

5. O ajuste fiscal, porém, se obtém com corte de gastos e/ou aumento de impostos. A primeira alternativa é a mais apropriada, mas ambas são impopulares e economicamente contracionistas. Ao menos enquanto os primeiros sinais de ajuste não forem explicitados e perdurar a desconfiança dos agentes econômicos, freio natural aos investimentos produtivos e à recuperação do nível de atividade.

6. O bom desempenho do setor externo tem uma importância menor no país do que em economias mais abertas e, ainda que ajude, não tem condições de isoladamente recolocar o Brasil na trilha do crescimento. É preciso resgatar a confiança que, combinada ao início do processo de queda da taxa básica de juros, sinalizada na mais recente reunião do Copom, pode dar o alento necessário à economia.

7. No entanto, é preciso ter em mente que esse é um processo que leva tempo. A melhora não ocorre de um mês para o outro. As pressões da futura “nova oposição” devem ser grandes. Quem era vidraça virará tijolo.

8. É para o governo Temer de certa maneira uma corrida contra o tempo num ambiente de muitas expectativas, mas também de enormes desafios locais e internacionais (juros nos EUA, atividade na Europa e, principalmente, na China, cotações das commodities, eleições nos EUA, etc).

9. A eventual concretização do impeachment da presidente Dilma Rousseff, portanto, não terá o condão de resolver todos os desafios econômicos e sociais do país. Há muito obstáculo a superar, apesar da empolgação inicial dos investidores.

10. Com esse pano de fundo, cabe perguntar: quais são os caminhos mais prováveis para os preços dos ativos nos mercados locais?

a. No que diz respeito à taxa de câmbio parece claro que não só de perspectiva de impeachment vive o recente enfraquecimento do dólar frente ao real;

b. Também pesam os números muito melhores do setor externo, as elevadas reservas internacionais, a ligeira recuperação das cotações das commodities em período recente (mesmo que incerta diante das preocupações com a China), a perspectiva de alta mais moderada dos juros nos EUA ao longo do ano e a própria valorização acentuada do dólar frente ao real em 2015;

c. Assim, apesar de sobressaltos eventuais, a taxa de câmbio tende a flutuar ao redor de R$ 3,50 nas próximas semanas (o BC tem feito intervenções no mercado e parece confortável com esse patamar) à espera das iniciativas do futuro governo e ao sabor das variáveis internacionais;

d. Em relação aos juros, fica cada vez mais clara a necessidade e a perspectiva da taxa básica começar a ceder em breve. O Copom deu o sinal na reunião do final de abril ao manter a Selic em 14,25% a.a. por unanimidade, o que não ocorria há três reuniões;

e. O mercado futuro já antecipou esse movimento a algum tempo, tendo como lastro a queda da inflação e a recessão econômica. A própria perspectiva de impeachment teve seu peso. Doravante, porém, parece que as iniciativas do futuro governo é que vão ditar os rumos da curva de juros. Prêmios tendem a aparecer em todos os vértices, mas toda atenção é pouca;

f. A bolsa de valores tem tido a seu favor os bons olhos com os quais os investidores percebem a perspectiva do impeachment, que também se reflete no maior fluxo de investimentos estrangeiros.

g. Porém, a economia brasileira (e as empresas que aqui atuam!) seguem, em sua maioria, em dificuldades e com grandes desafios a superar. Isso não pode ser esquecido, mesmo que os investidores antecipem tempos melhores com o eventual futuro governo.

h. O sucesso das iniciativas de ajuste é fundamental, mas não há milagre e os impactos na economia real levam tempo. Assim, tem que ficar claro que o ajuste fiscal está encaminhado e o futuro da economia será mais consistente.

i. Fácil comprar esse cenário? Não, mas é uma boa aposta que pode manter o índice Bovespa acima dos 50 mil pontos a maior parte do tempo no curto prazo. Altas acentuadas, porém, seriam surpreendentes.

11. Em suma, o momento é único para a economia brasileira e para os mercados. Não é todo dia que se está às vésperas da votação de um impeachment de um presidente, numa economia muito machucada e com mercados atentos não apenas aos riscos econômicos locais e internacionais, mas também às movimentações no campo político, que não devem se encerrar com a votação do impedimento no Senado. Estamos com um viés otimista para os mercados, mas é preciso manter muita atenção.

Atenciosamente,

Equipe Grau Gestão

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