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Cenário Mensal Dezembro/15: muitos eventos relevantes

 

1. O último mês de 2015 não fugiu à regra do que se viu ao longo de todo o ano e “provocou” o humor dos investidores com pelo menos três eventos relevantes, a saber: a) alta dos juros básicos (fed fund rate) nos EUA, a primeira desde 2006; b) rebaixamento do Brasil pela Fitch à BB+ (não grau de investimento), seguindo o que a S&P já havia feito em Setembro de 2015; e c) troca de comando da economia, com a substituição de J. Levy por N. Barbosa.

 

 2.  A leitura desses fatos foi, obviamente, negativa, alimentada, nos dois primeiros casos, pela potencial fuga de recursos do país e, no terceiro, pelos riscos de revisão nas premissas de austeridade na gestão econômica defendidas por Levy.

 

3. O lado bom dessa história (com esforço pode-se tentar ver algo de bom) é que alguns dos grandes temores que se desenhavam para os primeiros meses de 2016 já ocorreram em 2015 e, de certa maneira, foram absorvidos pelos mercados! 

 

4. Os impactos sobre os preços dos ativos financeiros locais foram negativos, mas poderiam ter sido piores, não fossem, respectivamente, os sinais enviados pelo Federal Reserve (FED – banco central norte-americano) de gradualismo na alta dos juros e o fato de que os gestores internacionais já haviam em grande parte antecipado o rebaixamento da economia brasileira e feito os ajustes necessários na composição do patrimônio dos fundos de investimento.

 

 5.  Temos boas razões, portanto, para ter um olhar menos preocupado com o ano que se inicia? Não. O contexto geral ainda é muito difícil e exige atenção redobrada.

 

Janeiro/16: Quadro político, Copom, China: mais “emoção” à vista...

 

6. No âmbito internacional, além das atenções com os juros nos EUA, persistem as dúvidas em relação à evolução da economia chinesa e, principalmente, à dinâmica das cotações das commodities - fundamental para países emergentes como o Brasil, que mantém forte trajetória de queda desde Maio de 2014. Esperamos estabilização dessa tendência com pequena retomada posterior nos preços, mas os riscos são grandes nessa variável.

 

7. Internamente, os desafios continuam no muito instável plano político. O tema do “impedimento”, a despeito de ter perdido força, não saiu de cena, assim como as derivações das investigações da operação Lava a Jato. Com esse pano de fundo desafiador, o governo tem que aprovar importantes (e impopulares) medidas no Congresso Nacional, especialmente no campo fiscal. Não será fácil.

 

8. No flanco econômico, ainda ecoam os números ruins de 2015: queda estimada de 3.7% do PIB, perda de 945.4 mil (Jan à Nov) postos de trabalho (Caged), retração real de 5,76% na arrecadação fiscal; déficit público primário ao redor de 0.9% do PIB e, entre outros, inflação estimada de 10,75% para o período, mais de 4 pontos percentuais acima do teto (6,5%) da meta para o ano.

 

9. Nesse clima, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne nos próximos dias 19 e 20/1. Tudo indica que a taxa básica de juros será elevada. O mais recente Relatório de Inflação (RI), divulgado pelo Banco Central do Brasil (BC) reforça essa perspectiva ao sinalizar que há 41% de probabilidade da inflação vir a, novamente, superar o teto da meta, em 2016.

 

10. Ao que parece, a taxa Selic passará de 14,25% para 15,25% ao ano, em duas altas consecutivas de 0,5 ponto percentual. Mas, acreditamos que a taxa NÃO deveria subir pelos seguintes motivos:

 

      • A inflação vai ceder acentuadamente, a partir das menores pressões dos preços administrados (18% em 2015 e 7,5%, em 2016, de acordo com a pesquisa semanal Focus do BC) e da nítida retração da demanda, conforme mostram os dados preliminares das vendas de final do ano (-7% no comércio varejista de SP). O IGP-M de janeiro/16 (0,55%) contra dezembro/15 (0,6%), reforça a perspectiva de queda da inflação já no 1º trimestre deste ano. Esse quadro deve se aprofundar na medida em que a taxa de desemprego sobe e a confiança do consumidor declina.
 
      • Há que se levar em conta a diferença no contexto de uma taxa da inflação em alta perto do teto da meta, de uma taxa em baixa, nesse mesmo patamar.
 
      • Os juros reais subirão dramaticamente mesmo que a taxa Selic fique em 14,25% a.a, já que a relação passaria de um CDI de 13,2% contra IPCA de 10,75%, em 2015, para 14,25% contra inflação ao redor de 7,12% (de acordo com o RI do BC). Os juros reais brutos subiriam espetacularmente de 2,12 pontos para 6,65 pontos do ano passado para 2016.
 
      • Os juros não precisam subir para atrair dólares. A crise econômica brasileira é geradora de dólares, num contexto que já tem como ponto de partida um volume de reservas internacionais muito expressivas (USD 353 bilhões). Basta constatar que em 2015 o saldo da balança comercial atingiu a US$ 19,7 bi - muito superior às estimativas. O fluxo de investimentos externos no país segue forte (o país “está barato”, mesmo) e será superior ao déficit em transações correntes que declina a olhos vistos.
 
      • O diferencial de juros reais entre Brasil e EUA aumentará mesmo que a taxa Selic fique em 14,25% ao ano e o fed fund rate suba intercaladamente a cada reunião do Fed para 2% ao ano, em 2017.
 
      • O impacto adicional negativo de uma nova alta de juros (absolutamente necessária no ano passado, lembre-se) sobre o nível de atividade e contas fiscais neste e no próximo ano, seria muito maior do que o potencial benefício no combate à inflação.
 

11. Há que se olhar a melhor combinação entre atividade e inflação, principalmente se o custo a pagar seja o de postergação de alguns poucos meses no declínio da inflação para o ponto central da meta. É uma questão de bom senso.

 

12. Essa é apenas mais uma das muitas questões com as quais os mercados terão que lidar neste início de ano. Assim, não é o fato do Brasil já ter sido rebaixado, da alta dos juros nos EUA já ter sido iniciada e a troca de ministros da Fazenda já ter ocorrida que “limpam” o horizonte dos investimentos.

   

13. O viés permanece negativo, mas a curva de juros futuros pode mostrar algum esgotamento depois de ter subido intensamente em 2015, em todos os vértices. A economia brasileira deve ter um segundo ano consecutivo de retração, mas o Ibovespa (que caiu 10,72% em 2015) pode apresentar algumas oportunidades. E a intensa desvalorização do real frente ao dólar (33,17% em 2015) pode ser enfrentada por um balanço de pagamentos cada vez mais favorável. A questão fundamental a responder, portanto, é: quanto dessa evolução já precifica os desajustes políticos e econômicos atuais do país? Motivos para pessimismo há, mas os exageros de mercado devem ser aproveitados. Nesse ambiente aparecem boas oportunidades.

Bom ano a todos, 

Equipe Grau Gestão 

                                                                      

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