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Mensal – Março/2016

 

  • No mês de fevereiro tivemos o rebaixamento do Brasil pela Moody´s, de Baa3 para Ba2. Assim, o país deixa de ser “grau de investimento” também por essa agência de classificação de risco. Foram dois patamares de uma só vez com base na deterioração do quadro fiscal, recessão econômica, inflação elevada e incertezas políticas.
   
  • O movimento segue o que já havia sido feito pela Standard & Poor´s (em setembro/15) e pela Fitch (em dezembro/15). É interessante notar que nos dias que se seguiram a decisão da Fitch, os mercados tiveram uma leve piora, já que se tratava da segunda agência a conduzir o país ao patamar de “não grau de investimento”, com efeitos potenciais negativos sobre o volume de investimentos estrangeiros no país.
   
  • A piora dos mercados foi pequena, mas perceptível, o que não aconteceu nos dias que se seguiram à ação da Moody´s. Desta vez, o impacto foi irrelevante. A taxa de câmbio passou de R$ 3,96 por dólar às vésperas do rebaixamento para R$ 3,93 uma semana depois; o risco Brasil, medido pelo CDS, passou de 451 para 450 pontos; o índice Bovespa flutuou entre 42.084 e 44.121, e a taxa de juros futuros (dois anos) passou de 14,57% para 14,30% a.a. Na verdade, os preços dos ativos melhoraram desde anúncio feito pela Moody´s.
    O que poderia explicar tal comportamento dos mercados?

   

  • A decisão da agência não teve o mesmo impacto potencial de suas parceiras, mas o timing foi emblemático porque ocorre num momento em que aumentam as preocupações com os rumos da economia internacional, particularmente com a desaceleração do nível de atividade na China, com as dificuldades econômicas na Europa e no Japão (o banco central japonês estabeleceu uma taxa de juro básica negativa há duas semanas) e com o declínio das cotações das commodities. Inquietações graves o suficiente para levar o Federal Reserve (banco central dos EUA) a reavaliar qual deve ser o ritmo mais apropriado de alta, em curso, da taxa do fed fund rate (juro básico norte-americano).
   
  • É fato, que essas questões têm trazido temores e ocasionalmente mexido com os preços dos ativos financeiros no Brasil, mas, por enquanto, nada muito negativo. De fato, quando escrevemos este texto, ao início de março, o Ibovespa acumula alta próxima a 4% no ano, o dólar cede perto de 3% no período e os juros futuros (para 2018) estão mais de dois pontos percentuais abaixo do que estavam no início de 2016.
   
  • É evidente que tal comportamento não decorre de uma abrupta melhora no ambiente econômico e político interno, a despeito de boas surpresas recentes, tais como: a) o superávit fiscal primário chegou a R$ 27,9 bilhões em janeiro contra esperados R$ 15 bilhões (a situação nessa área, porém, segue muito ruim, com déficit acumulado de 1,75% do PIB em 12 meses, e a geração de superávit de 0,5% do PIB no ano, conforme foi estabelecido, está praticamente fora de questão) e; b) o superávit da balança comercial de fevereiro chegou a US$ 3,04 bi e, mais uma vez, superou a mediana das estimativas do mercado (US$ 2,57 bi). A recessão econômica joga papel importante a favor da melhora das contas externas, mas vale mencionar que as exportações cresceram 4,6% frente a igual período do ano anterior. Algo que não acontecia há 17 meses.
   
  • Tais dados não alteram, porém, o quadro de crise que envolve o país e que legitima a decisão tomada pela Moody´s. Afinal, a recessão é uma realidade. O PIB cedeu 1,4% no 4º. trimestre de 2015 frente ao trimestre anterior, acumulando retração de 3,8% no ano.  O pior desempenho desde 1990, que fez com que a taxa de desemprego subisse para 7,6% em janeiro em comparação aos 5,3% observados um ano antes, com tendência de alta. Além disso, vale lembrar que a inflação, apesar da provável queda gradual a partir de fevereiro, deve ficar acima de 7% neste ano, mais uma vez superando o teto da meta estabelecida para o período.
  Os investidores estão, portanto, desconectados da realidade?

 

  • Não é o caso. Parece-nos que o comportamento moderado dos mercados nos primeiros meses deste ano tem mais a ver com a antecipação do que se desenhou como o “pior dos mundos” para o cenário político e econômico no país. Com um pano de fundo como esse nenhum número negativo surpreende. Trata-se, sob a ótica de muitos analistas, do “fim dos tempos”. Logo, nada surpreende do lado negativo.
   
  • Além disso, uma grande parte do ajuste já aconteceu. A movimentação do dólar, da bolsa de valores e dos juros ao longo de 2015, não foi irrelevante ao refletir a piora do quadro geral do país. Pelo contrário. Mais: a “empresa Brasil”, por pior que esteja, tem gerado mais dólares em seu on going business do que se imaginava!
   
  • Assim, esperar novas explosões do dólar com as informações disponíveis pode ser mais arriscado do que se supõe. Pode acontecer? Sim, claro, até porque tem muita gente que advoga essa tese, mas é preciso um fato novo que vá além do “pior dos mundos” já desenhado anteriormente. Isso justifica a tese do alçapão abaixo do fundo do poço e/ou do risco do país não vir a honrar sua dívida interna. Essas teses, por ora, não atingiram aos corações e mentes da maioria dos agentes econômicos. E talvez não atinjam.
   
  • Apesar da grave situação na qual se encontra a economia brasileira, o mercado pode, por exemplo, ver com bons olhos uma inflação de 7,5% este ano, já que muitos dizem que pode ficar em dois dígitos novamente. Paradoxal, mas concreto. Num ambiente como esse, a melhor alternativa é não se prender à tese de que só pode piorar (ou de que ainda não houve piora suficiente), nem tampouco à sensação de que o fundo do poço já chegou.  Atuar nos usuais exageros dos mercados para um lado ou para o outro é o melhor caminho. Mas, que fique claro, temos o viés de que há chances maiores de que juros se estabilizem, com viés de baixa (inflação em queda e ambiente internacional recessivo), assim como a taxa de câmbio no curto prazo (ver os comentários do mês passado). Quanto à bolsa mantemos uma visão cuidadosa e defensiva, apesar da alta recente, à luz da recessão econômica interna e das fracas cotações das commodities no exterior.
   

Atenciosamente,

Equipe Grau Gestão

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