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O ano é novo, mas os desafios são os mesmos.

  1. O ano novo não alterou, obviamente,o quadro geral da economia brasileira. Os desafios não desaparecem num passe de mágica pela simples mudança de calendário. Assim, não tivemos grandes surpresas ao longo de janeiro com a divulgação de números econômicos, tais como: 1) taxa de desemprego em alta de 7,5% em novembro para 6,9% em dez/15 (4,3% em dez/14); 2) vendas no varejo em queda de 8,3% no mesmo período (-3,9% no ano); e 3) retração de 8,3% na produção industrial, em 2015 (a maior queda em 13 anos).
  2. Com esse pano de fundo,o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) inalterada, em 14,25% a.a, mesmo que os primeiros números de inflação anunciados para o ano mantenham a preocupação com essa variável. O IGP-M e o IPCA-15 ficaram em 1,14% e 0,92%, em Janeiro, contra 0,76% e 0,89%, respectivamente, em igual período de 2015, e sugerem que a queda da inflação tende a ser em ritmo bem gradual ao longo de 2016. Muitos analistas mais pessimistas vão além e defendem a tese de que a inflação deve seguir em dois dígitos neste ano. Não cremos nisso.
  3. Bem, parece-nos que o Copom, ainda que o BC tenha feito uma comunicação confusa,tomou a decisão mais apropriada no momento (ver nosso comentário do mês passado). Os argumentos mais explicitados na ata da mais recente reunião do Comitê explicam a decisão com base nos riscos econômicos internacionais, com ênfase no nível de atividade na China. O Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, também olha pra isso. Mas, o BC brasileiro nem precisava dar tanto peso a esse risco. A questão fundamental, na verdade, é a já fragilíssima demanda privada interna. Novas altas de juros hoje teriam mais efeitos negativos (nas contas públicas, por exemplo) do que positivos.
  4. No atual patamar de juros reais, que devem subir em 2016 frente a 2015, mesmo com a taxa Selic em 14,25% a.a, o caminho mais apropriado para reduzir a inflação vem do flanco fiscal. Ajustes nesse fundamento trariam benefícios pelo lado da demanda agregada e das expectativas. Os números de 2015 foram muito ruins, apesar de terem sido contabilizadas integralmente (R$ 72,4 bi) as pedaladas fiscais de períodos anteriores. O déficit fiscal primário em dezembro atingiu a R$ 71,7 bilhões, acumulando menos R$ 111,2 bi no ano, o equivalente a 1,88% do PIB (0,57% do PIB, em 2014). O déficit nominal saltou de 6,05% para 10,34% do PIB no período, elevando a dívida bruta do país de 57,2% para 66,2% do PIB. Esse é o flanco a ser combatido com maior intensidade.
  5. É importante lembrar que parte das críticas à decisão do Copom, repousa na premissa de que a taxa de câmbio deve se desvalorizaracentuadamente nos próximos meses e gerar novas pressões sobre os índices de preços. Tal preocupação merece atenção, é claro, mas não deve ser vista como algo inquestionável. Muito pelo contrário. O dólar pode chegar a R$ 5 ou 6 como apregoam os mais temerosos? Até pode, mas não é o quadro mais provável, a despeito do risco de quedas adicionais nas cotações das commodities no mercado internacional, que favorecem a alta da moeda norte-americana.
  6. E por que esse não nos parece o quadro mais provável? Por vários motivos. A enorme desvalorização da moeda brasileira frente ao dólar no ano passado (ao redor de 36%) foi decorrência de surpresas muito negativas no campo econômico e político. Basta conferir o que os analistas esperavam ao início do período e o que, de fato, acabou acontecendo. As premissas iniciais para o nível de atividade, inflação e contas públicas, entre outras, foram largamente superadas para pior. A pegunta básica que se faz no momento é: teremos uma segunda rodada de surpresas tão negativas? Não parece ser o mais provável. O ambiente político e econômico é muito ruím, para dizer o mínimo, mas já se sabe disso.
  7. O que mais contribuiria para o enfraquecimento intenso e contínuo do real? Perda do grau de investimento? Já aconteceu em duas agências de classificação de risco e a terceira é uma questão de (pouco) tempo. Forte recessão econômica? Estamos dentro do processo que não pode mais ser visto como surpresa. Troca de ministro da área econômica com boa aceitação do mercado por alternativa “mais incerta”? Já foi feita. Juros reais internos em queda, que alavancariam a busca por alternativas de investimento no exterior? São boas as chances de que as taxas reais este ano fiquem acima do que se viu no ano passado. Ou seja, muitos dos principais temores já se manifestaram nos últimos meses e a enorme desvalorização do real frente ao dólar no período foi o reflexo disso. E das incertezas políticas e da forte queda das cotações das commodities. Mesmo os economistas que mais “pediam” câmbio, para “proteger estimular a indústria nacional”, falavam em R$ 3,80 por dólar...
  8. Importante: os números das contas externas melhoram a cada novo dado divulgado para o segmento. Está claro que a atual crise brasileira é potencialmente geradora de dólares! A balança comercial surpreendeu favoravelmente no ano passado e em janeiro/16 também (US$ 923 milhoes, o maior superávit para o mês desde 2011); as estimativas para as contas correntes, de acordo com a pesquisa semanal Focus, indicam déficit de US$ 33.5 bi no ano, contra US$ 60 bi, do ano passado; os investimentos diretos no país devem atingir a US$ 55 bi, frente a US$ 64 bi, em 2015, de acordo com a mesma pesquisa; e as reservas internacionais têm se mantido ao redor de expressivos US$ 360 bilhões, a despeito do justificado mau-humor dos investidores em relação ao Brasil. Além disso, existem chances razoáveis de que se aprove a repatriação de recursos enviados ao exterior, a partir do final do ano, o que pode, na margem, gerar algum impacto sobre a cotação do real frente ao dólar.
  9. O Copom não poderia partir do princípio de que o real vai se desvalorizar incontroladamente e combater esa tendência com alta preventiva de juros. Não com os sinais disponíveis hoje. Parece que, no momento, o temor com a variável cambial tem mais a ver com fatos já conhecidos e “precificados” do que com novos eventos.  É como se ficássemos surpresos a cada gol tomado pela seleção brasileira ao assitir o video tape da derrota de 7 a 1 para a Alemanha. Ainda que haja riscos de desvalorização adicional da moeda brasileira – e não desprezamos tal possibilidade, que pode ocorrer por fatores psicológicos - é preciso que novos fatos venham a contestar as forças que hoje atuam em sentido contrário. A pesquisa Focus sugere uma evolução moderada para taxa de câmbio (R$ 4,35 por dólar ao final de 2016).
  10. Assim, a despeito do quadro político instável e das imensas dificuldades enfrentadas pela economia brasileira, mantemos uma visão atenta às oportunidades que o mercado concede com a bolsa abaixo de 38 mil pontos, os juros próximos a 16% a.a (no vértice de dois anos) e o real com forte oscilação neste início de ano.

Equipe Grau Gestão

                 

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