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Incertezas políticas ditam o ritmo dos mercados

1. Os preços dos ativos financeiros no país flutuaram ao longo de março muito mais ao sabor do cenário político do que em resposta aos números econômicos divulgados no período, mesmo que não faltassem informações relevantes nessa área.

2. Alguns exemplos: o IPCA-15 do mês ficou em 0,43%, bem abaixo da mediana das estimativas do mercado (+0,55%), reforçando a trajetória de queda da inflação estimada para 2016. Há um mês, a mediana da pesquisa semanal Focus do BC indicava taxa de 7,59% contra os 7,28% atuais.

3. O patamar esperado ainda é muito elevado e supera o teto da meta estabelecida para o ano, mas praticamente retira de cena a tese, defendida por alguns analistas, de que teríamos mais um ano com inflação de dois dígitos.

4. Não há razão para comemorações, porém, já que a desinflação em curso reflete a forte recessão econômica, e tende a recolocar o IPCA no centro da meta apenas no primeiro trimestre de 2018, de acordo com o mais recente Relatório de Inflação do BC.

5. Outro dado relevante: a entrada de investimentos diretos no país (IDP) em fevereiro chegou a US$ 5,92 bilhões, acima dos estimados US$ 5 bilhões para o período, reforçando a perspectiva de números relativamente “favoráveis” no setor externo.

6. Isso fica evidente quando, mais uma vez com base na pesquisa Focus, se constata a abrupta queda no déficit estimado para as contas correntes neste ano. Há um mês, os analistas trabalhavam com saldo negativo de US$ 29,3 bilhões contra os US$ 19,9 bilhões atuais. A estimativa para o IDP se mantém em superávit de US$ 55 bilhões.

7. É evidente que também não há grandes motivos para celebrações, já que esses números refletem a intensa queda das importações correlacionada com a recessão econômica, e à percepção (no caso do IDP) de que o Brasil, considerando o tamanho de seu mercado, está, numa análise de longo prazo, relativamente “barato”.

8. É forçoso também não esquecer os dados mais recentes referentes ao nível de atividade e às contas fiscais, ainda que não haja, infelizmente, novidades em relação a essas variáveis, que seguem flertando, para dizer o mínimo, com o fundo do poço.

9. As vendas a varejo em janeiro cederam 1,5% (estimava-se -0,6%); o IBC-Br no período caiu 0,61% (-0,52% em dezembro); a produção industrial em fevereiro retrocedeu 2,3% (-9,8% em 12 meses); e a taxa de desemprego subiu de 7,6% para 8,2%.

10. No flanco fiscal, o déficit primário atingiu a R$ 23,0 bilhões em fevereiro (estimava-se R$ 10 bi), acumulando saldo negativo de 2,11% do PIB, em 12 meses. A dívida bruta voltou a subir, de 67,4% para 67,6% do PIB. Quadro muito negativo.

11. A síntese do panorama econômico brasileiro atual é mais do que conhecida: recessão econômica profunda, leva à melhora, por vias tortas, das contas externas, à queda da inflação e à deterioração ainda maior das contas fiscais. Realidade terrível, mas fácil de entender, já que segue o roteiro dos livros textos.

12. Esse pano de fundo, que fique claro, sugere que a taxa básica de juros não deve subir nos próximos meses e vale perguntar aos que defendiam a poucas semanas novas altas da taxa Selic, se mantém essa tese. Acho bem difícil, como mostram a inflação em queda e a economia no fundo do poço.

13. A taxa básica de juros também não deve (ou não deveria) cair, já que a distância entre as expectativas do mercado para a inflação e o teto da meta sugere prudência por parte do BC. Assim, trabalhamos com taxa de 14,25% ao ano, ao menos até a virada do semestre, com queda muito gradual a partir de então.

14. Quanto à taxa de câmbio o cenário também é elucidativo. Mesmo diante dos gritos e temores de alguns analistas que sugeriam uma nova rodada de imensa desvalorização do real, a moeda brasileira vem se mantendo dentro de um intervalo de flutuação bem mais estreito e delimitado.

15. O real se valorizou por conta de períodos de maior otimismo com o desenrolar das questões políticas no Brasil? Sim, sem dúvida. Mas, mesmo nos momentos de maior angústia (viés político negativo, rebaixamento do país, etc), a moeda foi além dos R$ 4,00 por dólar, desde setembro do ano passado.

16. Os números positivos do setor externo indicam que a taxa de câmbio, apesar de volátil, tende a flutuar mais perto dos R$ 3,5 do que dos R$ 4,0 por dólar ao longo dos próximos meses.

17. Esse quadro pode mudar para pior? Sim, temporariamente nos eventuais momentos de maior decepção dos mercados com os desdobramentos do ambiente político ou por uma grande deterioração do cenário global.

18. Parêntesis em relação ao ambiente internacional: a evolução das cotações das commodities, muito relevante para países como o Brasil, é uma preocupação real diante das incertezas sobre o nível de atividade no mundo e pode, em alguns momentos, exercer pressão sobre o real.

19. Por outro lado, essa mesma preocupação reduz as chances de altas acentuadas dos juros nos EUA, que também poderiam vir a enfraquecer a moeda brasileira. Os sinais emitidos pelo Fed (BC norte-americano) indicam mais duas altas na taxa dos fed fund rates (juro básico local) neste ano, algo já assimilado pelos mercados.

20. Assim, repetimos, existem chances não desprezíveis de estabilidade ou valorização do real frente ao dólar nos próximos meses.

21. E a bolsa de valores? Bem, com esse pano de fundo, a bolsa de valores continuará a evoluir ao sabor das expectativas de mudanças no front político. Uma mudança de governo/ gestão econômica hoje é vista como fundamental pelos investidores, independentemente de estarem certos ou não (já se pode falar isso?).

22. Altas acentuadas no mercado acionário, porém, não têm respaldo no desempenho da grande maioria dos setores produtivos no Brasil de hoje. Há que se separar bem o que reflete um desempenho saudável das empresas listadas em bolsa daquilo que “apenas” reflete uma esperança de mudanças de rumos nas diretrizes da economia.

23. Assim, a pitada (e que pitada!) maior de incertezas para os agentes econômicos, vem do campo político.

24. Exige-se, mais do que nunca, grande atenção às datas-chaves referentes ao processo de impedimento (ou não) da presidente Dilma, à posse (ou não) de Lula como ministro, aos desdobramentos da operação Lava a Jato e às decisões do STF referentes a essas questões.

25. As notícias no flanco político têm tido, e continuarão a ter nas próximas semanas, impacto decisivo nos corações e mentes dos investidores. A acompanhar de perto.

Atenciosamente,

Equipe Grau Gestão

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